sábado, 24 de abril de 2010

A virtude de Lula

Luiz Inácio Lula da Silva é peculiar. Não é um dentre tantos políticos profissionais que aparecem por aí, e aqui, não cabe nenhum juízo de valor, a despeito do título. Nem a ele nem aos outros. Mas é fato que ele exala distinção: variável marcante é o grau de comunicação auferido entre o homem e a população. Esse é o principal traço que o diferencia, e por uma razão simples: as pessoas o entendem. Mais que isso: se ele é mentiroso, é o melhor mentiroso do planeta. Se é sincero, tem o dom de emanar isso em suas palavras. É dizer: a população acredita em sua persona. E aqui sou generalista, não obstante os casos em que a relação de (des)crença popular referindo-se ao presidente tenha atingido níveis estratosféricos, por razão de estripulias de seu partido.

Qual é o mecanismo pelo qual opera esse carisma, é a pergunta que cabe. A maior virtude de Lula é, justamente, o seu calcanhar de Aquiles apontado por muitos: seu absenteísmo de instruir-se. O presidente não cursou faculdade, não foi contaminado pelo vírus da academia, do letramento. A despeito dos prejuízos que isso pode acarretar, o qual comentaremos adiante, a não-instrução acadêmica deu a Lula condição ímpar de comunicar-se com os brasileiros, também historicamente alijados da educação superior. Ele, ao fazer esta escolha (ou ser imposto a ela), equivale-se a milhões de brasileiros, os quais nele veêm uma representação, recheada de relações de igualdade, semi-igualdade ou similitude.

Ao comparar-se o discurso de Lula ao de outros políticos profissionais, repara-se que o presidente não utiliza palavras difíceis (ou vocábulos complexos), em contraste com a fala dos outros, os quais, para além de muitas vezes terem cursado o ensino superior, representam estratos sociais distoantes da maioria da população brasileira, e, por isso, não são canonizados para representar o ideário nacional. Ainda, Lula não tem medo de falar de forma grosseira, costumeira, tipicamente brasileira, e isso observa-se de maneira contundente em suas entrevistas, as quais permitem ao homem soltar-se mais das amarras do marketing presidencialista e eleitoral.

Com relação ao que se diz sobre as inabilidades do presidente em desempenhar função tão importante e dispendiosa, por razão de sua falta de estudos, é notável frisar que ningúem governa sozinho. O maquinário estatal disponibilizado à presidência é, pelo menos em teoria, habilitado a acessorá-lo nas diversas questões que compõem o cenário nacional (e internacional). A função do presidente é muito mais mediadora, negociadora, personificada na figura do gestor, do que técnica. Tais aptidões desenvolvem-se eficientemente no âmbito social-sindicalista o qual Lula figurou por décadas, e no campo político, por razão da fundação do PT, sob a égide do novo sindicalismo emergido na década de 70. Ora, a universidade não é a fonte de todo conhecimento, quanto mais em seara administrativa e, por fim, na Administração Pública, devido à fundamental necessidade de barganha política.

Luiz Inácio da Silva inova pelo não-fazer. Pela singularidade, dentre os políticos de repercussão nacional, de representar o povo em seus gestos, atitudes e dizeres. Talvez por isso o fenômeno do lulismo tenha alcançado o patamar que chegou hoje, graças a essa capacidade derivada da incapacidade. A despeito de posicionar-me, de forma contundente, a favor ou contra o presidente, uma coisa é certa: inaugurou-se novo paradigma na política nacional, quando esse homem subiu ao poder.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Rostos 2

Narizes pontudos, pra mim, denotam seriedade. Com uma covinha, então... Bocas grandes e carnudas podem ser sinal de sensualidade, quando a dona sabe utilizar-se dela. Sombrancelhas grossas sempre chamam a atenção para a firmeza e, em certo grau, agressividade, em homens quanto em mulheres. Conheço algumas (sombrancelhas), contudo, que são muito dóceis. A cor da pele pode significar algo, algo como talvez o registro sócio-cultural demarcado para o negro, e, porque não, para o branco. Algo como a herança social daquela pessoa por carregar o gen escuro, o que, quer queira, quer não, conta. Como tudo convergirá, entretanto, cabe ao dono de cada gen dizer. De forma análoga à primeira parte, devo salientar que todas os poréns deste segundo parágrafo atentam para alguma coisa. Sim, não sou tão ingênuo, ou, como alguns podem até pensar, racista a esse ponto (as palavras encaminharam-se, sozinhas, para outra direção tal que não pude impedi-las). A herança genética, representada pelos rostos, influencia e é influenciada pelo comportamento peculiar de cada um, responsabilizando os donos de rostos a alavancarem sua personalidade assim como queiram. Ainda, o que chamo de personalidade de nascença pode não relacionar-se em nada com a impressão causada pelos genes da aparência.

(é tudo um esforço de compreensão de alguém que gosta da pluralidade das pessoas.!)

Rostos e olhares

Sempre fascinei-me por rostos. Óbvio que olho mais para os mais bonitos, mas atento-me também à expressão que pode neles desempenhar-se, e esta, até mesmo nos mais feios. Não requer idade, não é criteriosa, nem sequer humanidade. A feição é universal, útil aos enamorados, à família escolhida ou não, a quaisquer conjuntos de relações humanas que o leitor julgar relevante (espero que todas). A utilidade consiste em seu desvendar, em sua eficaz compreensão e deciframento. Pode não ser tão fácil como as vezes possa parecer, e digo que, em alguns casos, trata-se de um quebra-cabeças e tanto. As mulheres estão aí e não me deixam mentir. O esforço do decifrador de feições deve concentrar-se nos olhos. É batido, sim, mas o olhar diz muito, e, quando dois cruzam-se, é para não deixar dúvidas. Tem alguma coisa ali. Algo de novo, de antigo, de futuro ou remanescência, isso no jogo do flerte, ou de tristeza compartilhada ou compaixão, nos casos de tragédia. Ou de felicidade conjunta, de orgulho mútuo por objetivo alcançado, de paixão vazada e de ódio recíproco, pra se dizer dos mais fortes. A esta altura do campenonato nota-se que meu esforço por não repetir os vocábulos denota algo comum a todos eles. Algo que revela laços entre as pessoas, e que, muitas das vezes, pode significar, para o bom olheiro (e bem-intencionado), muito mais do que palavras (parece que fugi do título que inicialmente escolhi para esta conversa, deixe-me adaptá-lo). Mas rostos são belos, em sua essência, mais belos quando bem-cuidados, e sorrateiramente atingem a perfeição quando o amor adentra a relação (sim, aquele romântico mesmo).

Animalmente

A senhora, gatamente, entra na lojinha de conveniência
O gerente, ele mesmo, estressado búfalamente, resmunga,
Com ares de pitbull: O que quer!?
Ah, mas ela só queria, cachorrinhamente, uma informação
Com um embrulho de carinho, como quer todo cão
E o senhor, cavalarmente, expulsa as palavras da boca
Mastiga, leoninamente, a raiva, e esquece, de supetão
De pronunciar bem o que diz.
Esquece-se peixamente dos bons-costumes
Que seu pai não lhe passou.
Lembra-se, aguiamente, do dinheiro que não empunhará
E, com veneno de coral, arma-se em frente à senhora
Arma dita, como o mais feroz latido,
Tangibilizou-se em xingamento, sincero (e porco) como urubu
O que fez a dona de casa, ratamente
Voltar, como macaco abatido, para o
Carinho e calor de seus animaizinhos.

Registrador de pensamentos

Será que já há dinheiro que pague
Aparelho para se registrar tudo o que pensamos?
Porque se tiver, eu vou querer um monte
Porque deve ser caro.

Precisaria, mesmo, de um desses
Porque quero escrever o tempo todo
Se não escrever, sim pensar, e refletir
E imaginar, e abstrair, e refletir
E penso que os meus pensamentos
Seriam úteis para diversas pessoas.

A forma de refletir fazendo arte
E fazer arte consciente
É a que mais gosto, particularmente.
Não por uma preocupação social exacerbada
Mas simples, e naturalmente...
Por uma quedinha de espírito.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cartas

Carta avoa pensamento
Apazigua coração
Descreve plebéia a saudade
Porque
Embora não fosse virgem
Descobri selo
Para o amor.